Visão geral da produção de Reich e reflexões sobre a repressão à criatividade e à vida livre

    “ Orgulho-me de estar em tão boa companhia, com Sócrates, Cristo, Bruno, Galileu Moisés, Savonarola, Dostoievski, Gandhi, Nehru, Mindszenty, Lutero e todos que combateram contra o demônio da ignorância, os decretos ilegítimos e as chagas sociais. Você aprendeu a esperar em Deus assim como nós compreendemos a existência e o reino universais da Vida e do Amor.” (Trecho da carta de Reich, escrita para seu filho Peter na prisão pouco antes da sua morte.).

    “Será que o panorama do mundo contemporâneo, e o da Saúde Mental em especial, se apresentam tão sinistros que encontrarmos um conjunto de escritos que defende de modo talentoso a vida, a liberdade e a invenção é uma espécie de bálsamo para os espíritos pesarosos e injuriados por este sombrio horizonte ?” Gregório Baremblitt, em Saúde e Loucura 4

    Reich é um desses bálsamos de que nos fala Gregório. Sua obra sempre pode ser caracterizada como um conjunto de escritos, bastante diversificados e criativos, que defende de modo talentoso a vida, a liberdade e a invenção.

    Ao fazer aqui um apanhado geral da produção de Reich, esperamos não reduzi-la em esquemas que sacrifiquem sua riqueza. E nem construir uma colcha de retalhos mal costurada e contraditória, um “Frankenstein” teórico. Queremos, sim, com suficiente clareza, dar uma pequena amostra desse patrimônio. De modo a incentivar mais pessoas a dele se apropriar, a buscar sua leitura e uma proveitosa compreensão.

    Neste texto as idéias de Reich serão organizadas, de acordo com suas concepções, em três períodos sucessivos, que chamaremos de psicanalítico, corporalista e energético. Ressalte-se que suas obras de cunho social perpassam todos eles. As épocas da direção psicanalítica e a da vegetoterapia, ou corporalista – a da inserção do corpo na psicoterapia – são as da Europa entre as duas grandes guerras. A do energético, a dos Estados Unidos do pós-guerra. Sua importantíssima obra social teve o devido reconhecimento, por autores como Marcuse, Foucault, Deleuze e Guattari, dentre outros, todos identificados com um pensamento crítico que ganha notoriedade no Ocidente do último terço do século XX.


O período psicanalítico

    Vêm do seu período psicanalítico as poderosas contribuições técnicas e conceituais que ampliam a compreensão das noções de resistência, transferência e caráter, dentre outras. O Dicionário de Psicanálise de Roudinesco o aponta como “ o criador do freudo-marxismo, o teórico de uma análise do fascismo que marcou todo o século e o artífice de uma reformulação da técnica psicanalítica que se apoiava em uma concepção da sexualidade mais próxima da sexologia que da psicanálise .”

    Como criador do freudo-marxismo nos dá bases que permitem aproximarmos-nos de uma abordagem complexa de nossa realidade. Complexidade aponta não para a dificuldade, mas para diversidade e articulação. Corpo/mente/emoção/energia se integram conceitualmente em sua produção, que constrói, assim, uma ponte entre Ocidente e Oriente: Somos humanos, demasiadamente humanos, e energéticos.

    As atitudes apaixonadas, a coerência com suas idéias e o vigor no trabalho, marcam o homem Reich. Sua curiosidade, seu olhar original, e a generosidade de seu testemunho refletem seu real envolvimento com a vida e com os que a vivem. Dirige um seminário de sexologia, cria uma clínica de atendimento psicanalítico a preços acessíveis e publica uma revista marxista. Era o único psicanalista que mantinha contato com a Rússia comunista e lá participava dos debates sobre a psicanálise.

    A criação da SEXPOL, grupos de discussão sobre a política dos relacionamentos e da vida sexual de adolescentes operários, o indispôs com a Sociedade Psicanalítica e o Partido Comunista. O que resulta na expulsão das duas corporações.

    O escrito social de maior importância desse primeiro período foi a Revolução Sexual, no qual defende liberdade sexual para os jovens. Liberdade que se contrapõe à banalização e à promiscuidade. Que implica em autonomia, compromisso político.


O período corporalista

    Na Dinamarca e Noruega, desenvolve e estrutura o trabalho de psicoterapia corporal que chamou de vegetoterapia. Com base em conceitos sobre a bioenergia – que acreditava ser de natureza eletromagnética, a percorrer o organismo – o orgasmo e sua função. Ocasião de grande produção técnica em que desenvolve procedimentos de várias atuações em cenário terapêutico. Muitas delas parecidas com alguns desempenhos praticados no yoga, no taoísmo e na eutonia.

    O corpo não a ser escondido, mas a ser olhado, integrado ao psiquismo. O corpo é também psíquico e o psíquico também está no corpo. Se, até então, o psiquismo estava nas idéias, aparecem o corpo e mente em um ser integrado.

    Acrescenta à sua obra novos conceitos sobre a dinâmica do funcionamento psíquico descrita por Freud. Repudia a pulsão de morte como seu estruturante. E coloca em sua base pulsões de vida somente. Nascemos imersos nelas. Podemos, no entanto, a depender do curso do desenvolvimento, tender, em momentos, a funcionamentos semelhantes àqueles animados pelo que seria uma pulsão de morte. Movimentos que não seriam considerados, como a pulsão de morte, expressão do fim ou dos limites naturais, mas erupções de paralisia, de destruição gratuita, de morte em vida, de doença.

    Escreve a Psicologia de Massas do Fascismo. Ao nos imputar em nossas desgraças coletivas reafirma nossa responsabilidade pela construção da equidade. Hitler só existiu porque existiam pessoas que o apoiavam e pessoas que fechavam os olhos para sua ascensão. Esse livro foi reconhecido por Deleuze e Guattari, na década de 1970, como um dos mais importantes já escritos.


O período energético

    Nos Estados Unidos, na euforia do pós-guerra, cria uma das mais brilhantes teorias psíquicas já construídas. Dota-nos de um poder de vida maravilhoso sempre em movimento, unido ao cosmos, que chamou de potência orgástica. Consegue conceituar a felicidade. A felicidade não só se torna possível como pode ser alcançada. Precisa de muito pouco: de um reencontro com nosso cerne biológico, cuja matéria prima era o amor constituído dessa energia vital que em tudo estava – o órgon. Fabrica aparelhos que o capturavam, inventa exercícios que nos tornam mais próximos de seu alcance. Cria conceitos para a clínica como os de sensação de órgão, correntes vegetativas e contato. Deixa-nos além de uma nova linguagem e postura clínica, a perspicácia de doenças físicas como os cânceres como criação da infelicidade. Alimentada constantemente pela energia resultante de estagnação, da infelicidade: a energia “dor”.

    Dá o nome de orgonomia a essa nova ciência que cria. Orgonomia vem da palavra órgon, o nome que deu à energia cósmica que descobre e prova existir.

    Aproxima-se assim, na teoria, em nossa leitura, de várias doutrinas orientais como o taoísmo, a mais próxima talvez, o tantrismo, o hinduísmo e o budismo.

    Escreve o Assassinato de Cristo e Escuta Zé Ninguém, onde mais uma vez fala da importância da solidariedade, da responsabilidade social, do respeito ao outro, que nunca está distante de nós, mesmo que em outro planeta. Nesse período demonstra também, em Contatos com o Espaço, uma grande preocupação ecológica.

    Em outubro de 1957, agentes do governo estadunidense apreendem todos os livros da editora do Instituto Orgone, na cidade de Nova York. Transportados num caminhão de lixo, são queimados num incinerador. Livros queimados... Todos de autoria de Wilhelm Reich!

   
 Livros de Wilhelm Reich queimados

    Por quê?

    Por que o governo estadunidense apoiado por um setor da comunidade cientifica se deu a esse trabalho?

    Porque Reich seria um louco excêntrico? Caso o fosse, seria, então, apenas mais um dentre tantos. Poderia vir a cair no esquecimento. Muitos foram os fanáticos que até seitas religiosas criaram e não foram assim perseguidos.

    Martin Gardner nascido em 21 de outubro de 1914 em Tulsa, Oklahoma é um matemático recreativo e cético. Teve uma coluna de sua autoria, Jogos Matemáticos, por muito tempo publicada na revista de divulgação científica Scientific American. É conhecido principalmente por seus esforços dedicados ao longo de décadas ao jornalismo popular em ciência e matemática. Seus interesses variam da ciência e da filosofia, à mágica e ao movimento filosófico do ceticismo, em cujo campo ele é considerado uma figura notável. Vive atualmente em Norman, Oklahoma. Pessoas que compartilham de seus interesses mantém, desde 1993, conferências ocasionais em sua honra, conhecidos como os "Encontros para Gardner".


    Tem um interesse permanente em convicções religiosas. Seu romance semi-autobiográfico, O Vôo de Peter Fromm, pinta um homem tradicionalmente cristão protestante lutando com sua fé, em última instância rejeitando o Cristianismo, embora permaneça teísta. Crítico de religiões organizadas acredita em Deus, ciente de que esta convicção não pode ser confirmada ou desconfirmada pela razão. Gardner é respeitado tanto pela comunidade da magia quanto pela comunidade científica. Existe um asteróide Gardner, nomeado em sua honra.

    Este senhor, Martin Gardner, denuncia Reich em todos os meios de comunicação. Consegue um grande espaço da mídia e tem um amplo apoio da comunidade cientifica.

    E se a obra de Reich houvesse algum resquício de razão? Teria sido sensato jogar fora seus 30 anos de pesquisas? Seus, como vários acreditam, enganos a ninguém informariam? Nem para que, no mínimo, não mais fossem cometidos? Por que nenhum dos livros de Reich pôde ser legalmente impresso nos Estados Unidos até 1967?

    A insistência no prejuízo à saúde que a energia nuclear causava, a militância em prol da rede de prevenção de neuroses através da liberdade sexual e a defesa da existência do orgón mereceria tamanho repúdio por parte dos cientistas?

    Pediu a todos, principalmente cientistas, que compartilhassem de suas pesquisas. Ele queria que mais gente pudesse comprovar ou não seus experimentos. Jamais guardou qualquer coisa como segredo. Sempre publicou cada passo do que fazia e descreveu cada aparelho que usava e como eram feitos.

    Através desses vários aparelhos que desenvolveu, descobriu que a energia nuclear fazia muito mal para a saúde das pessoas e do planeta como um todo. Em seu livro, Contatos com o Espaço, relata passo a passo suas experiências que comprovam o mal que a energia nuclear faz e como a energia orgônica é capaz de regenerar bastante desse mal.

    Outros aparelhos que criou têm uma aplicação direta no campo da saúde, como o acumulador de orgón (aparelho que acumula e armazena energia orgón) e que também foi alvo de muita polêmica e especulação superficial.

    A nosso ver, o trabalho preventivo que vinha desenvolvendo na época, também foi em grande parte responsável pelos ataques que sofreu. Hoje falar de parto natural, amamentação, educação sexual infantil, liberdade sexual para os adolescentes não é tão polêmico. Mas, em 1950 nos EUA, era mais que polêmico: era perigoso. Existem várias publicações que registram processos e processos e até prisões de pessoas que falavam muito menos. E outra: Reich não só falava, também agia. Ele considerava o trabalho de prevenção tão importante, ou mais, do que os experimentos científicos dele.

    Seu livro “Crianças do Futuro” tem como subtítulo “sobre a prevenção da patologia sexual”. Esse subtítulo para a época é bastante polêmico. A “Revista de Psicologia política e Economia Sexual”, por ele editada, trazia em seus números vários artigos abordando o tema. Reich também fazia reuniões e palestras sobre a importância da prevenção.

    Esse homem que chocou muitos e que mais tarde teve suas idéias usadas pelo outro lado da moeda do moralismo – o da irresponsabilidade sexual – continua mais revolucionário ainda hoje em dia.

    Hoje talvez possamos abandonar o preconceito e experimentar suas hipóteses. Podemos, através da nossa clínica, continuar a comprová-las e perceber sua profunda utilidade, como podemos comprová-las também através dos seus experimentos ambientais e do seu trabalho com a prevenção, como alguns já o fazem no mundo todo.

    Seus caminhos e sua obra continuam e devem convergir cada vez mais para a construção de um só caminho – o do amor, do trabalho e do conhecimento como valores básicos da vida.

 

 

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